23
May
2008

O Dançarino das Areais

sand dancer

Fonte: Scoop Independent News

Ele chega à praia junto com os surfistas, quando o sol ainda é recém-nascido. Como para eles, o contato com a praia e o mar é a forma que o neozelandês Peter Donelly encontrou para se sentir em equilíbrio com si próprio e com o mundo que o rodeia. No entanto, as quatro horas quase que diárias que ele gasta na praia não têm nada a ver com esportes, pelo menos não intencionalmente.

Pete é um artista plástico que um dia, talvez do alto de um morro, olhou para as areais de Christchurch e viu uma enorme tela em branco. Munido de uma vassoura de folhas e um bastão, decidiu preencher aquele vazio estético e instalou seu ateliê frente às brisas do oceano Pacífico.

Diferentemente de milhares de artistas que quebram a cabeça para criar algo inovador, que rompa com os padrões e os transforme em ícones da cultura contemporãnea, Pete Donelly cria suas obras obra tamanho king-size pelo simples prazer de criar e talvez jamais imaginou que pudesse ganhar fama mundial por causa de seu passatempo, que para os curiosos que observam de longe não passa de uma loucura.

Pelas redondezas de onde vive, esse talentoso artista é conhecido como Sand Dancer, já que parte de seu trabalho envolve, entre outras coisas, dar saltos enormes para não prejudicar a área já trabalhada. Enquanto cria, o bailarino das areias é observado por dezenas, às vezes centenas de curiosos que se posicionam em lugares mais altos para obter uma visão privilegiada do produto final que nem o próprio artista é capaz de ter.

Justamente por isso, pela impossibilidade de ver o que faz desde uma perspectiva superior, o trabalho de Pete é ainda mais impressionante. Seus desenhos gigantes, que parecem demorar dias para serem completados, são todos feitos às cegas, sem um plano-geral que o ajude a vislumbrar qual caminho seguir para atingir seus objetivos finais, se é que ele os têm. Se está difícil de imaginar, dê uma olhadela aqui:

Arte na areia é algo bastante recorrente em todo o litoral brasileiro, principalmente no Rio de Janeiro onde hordas de turistas pagam até 10 reais para fotografar esculturas de mulheres em fio dental, com suas bundas estrategicamente posicionadas para o calçadão. Longe de mim fazer um julgamento de valor sobre nossos artistas cariocas, que muitas vezes impressionam pela capacidade de esculpir a areia com tantos detalhes e verossimilhança, mas o trabalho desse neozelandês é verdadeiramente original e deslumbrante.

Segundo Donelly, protagonista de um curta-metragem premiadíssimo chamado “Sand Dancer” do qual uma parte foi extraída e publicada logo acima, os curiosos costumam participar de seu processo criativo gritando desde longe coisas como “a maré está se aproximando!”. Entretanto, para ele a chegada das ondas é o que completa sua obra. A efemeridade de suas criações e a integração total delas com a natureza são fatores decisivos que definitivamente lhes conferem uma beleza e sensibilidade ainda maior que a provocada simplesmente pela estética.

Não vejo a hora de pôr os olhos neste documentário, dirigido por Valerie Reid, e conhecer um pouco mais sobre esse personagem tão peculiar. Enquanto isso não é possível, o vídeo acima dá uma amostra bastante instigante do trabalho de Pete Donelly.

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