Hoje, Yelle! no Glória em Sampa
Tô pra escrever dela faz tempo, mas como neste exato momento ela ESTÁ aqui na minha linda cidade (que representou magistralmente o caos infernal em “Ensaio sobre a Cegueira”, que vi ontem e MEU DEUS!!!) não dá mais pra enrolar. Se você não é besta de perder um showzáço, só colar no Glória (R. Treze de Maio, 830) às 23h00 do dia 30 de setembro, terça-feira. Mas antes dê uma passada aqui neste site pra incluir nomes na lista de desconto e pagar R$50 ao invés de R$60 (tem que por os nomes até às 20h) . Sei que não é barato e é numa terça-feira, mas que macacos me mordam se não valer a pena!!!
De Silas Martí da Folha de S. Paulo: “Se é verdade que ela só canta sobre seu dia-a-dia, a vida de Yelle, alcunha da francesa Julie Budet, que se apresenta nesta terça (30), no clube Glória, deve ser cheia de sexo, hetero e homossexual, luxúria, humor e moda.
Yelle, diminutivo da frase inglesa “you enjoy life” (aproveite a vida), já foi rotulada de musa do novo “french touch” à rainha do tecktonik, a dança que se espalhou como praga mundo afora via YouTube. Na primeira turnê desse lado do Atlântico, ela, o marido GrandMarnier, na bateria, e Tepr, no teclado, fazem show com repertório do disco de estréia, “Pop Up”.
Mais do que suas influências e temas por trás das músicas –o tamanho do seu sutiã e seu melhor amigo, o vibrador, são alguns deles–, importa saber que a garota que diz amar “ser livre para cantar sobre lesbianismo e vibradores” arma uma verdadeira festa.
Ela pede que o público vista máscaras e se prepare para um desbunde fashion –no palco, vai vestir criações do jovem designer belga Jean-Paul Lespagnard”.
Pra dar um gostinho, abaixo três clipes da moça.
“Je veux te voir”
“A Cause des garçons”
“Parle à ma main” (FALA COM A MINHA MÃO!)
Sin palabras
Após 6 anos refém das FARC na selva colombiana, Ingrid Betancourt finalmente revê seus filhos Mélanie e Lorenzo.
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No começo do ano, pouco antes que Clara Rojas e Consuelo González fossem resgatadas das Farc pelas negociações de Hugo Chávez com o grupo guerrilheiro, alguns rebeldes foram capturados pelo exército colombiano. Com eles estava uma longa carta de Ingrid Betancourt para seus filhos na qual descrevia as péssimas e humilhantes condições em que vivia no meio da floresta.
Um trecho: “Vivo e sobrevivo em uma rede estendida entre dois pedaços de pau, coberta com um mosqueteiro. Sobre ele há uma barraca que se faz de teto e assim posso pensar que tenho uma casa. (..)”
Comovidos pela brutalidade das palavras que sua mãe encontrou para descrever a vida brutal à qual foi submetida, seus filhos decidiram responder à carta publicando o livro “Lettres à maman par de-là l’enfer” (algo como “Cartas para a mamãe para além do inferno”) e fazer todo o possível para que chegasse até suas mãos e a levasse forças para sobreviver.
Encontrei alguns trechos do livro, que ainda não foi publicado em português. Segue uma tradução grosseira:
“Nesta selva que te prende tudo é tão longe, até mesmo o sol. Tudo te machuca, tudo é inumano. Mesmo assim, você conseguiu encontrar a verdade nas tuas palavras. Mamãe, você nos acordou. Hoje sabemos o que significa ser livre. (…) Estamos tão orgulhosos de você, mamãe. Você, que ainda encontra forças para se negar a jogar o jogo de teus seqüestradores. (…) Você é resistente, valente, inteligente e forte. Sabemos que a resistência e a coragem não são infinitos. Por isso te pedimos que agüente um pouco mais, apenas um pouco… Nossas palavras te alcançarão gota a gota pelo rádio e serão tua energia. Nossos pensamentos, aquele que te enviamos em segredo, serão teu consolo. Ganharemos! Queremos vê-la de novo, encontrar teu sorriso e tua alegria de viver. Existirá para você de novo livros, risadas e liberdade. Até logo mamãe!”

Após a publicação em janeiro na França, Mélanie e Lorenzo viram duas companheiras de cativeiro de sua mãe encontrar a liberdade. A necessidade de reencontrar a mãe, imagino, lhes fez resgatar as esperanças que jaziam esmagadas pelo tempo em algum lugar de seus corações. E assim, seguiram enviando mensagens de força e esperança não apenas em entrevista a redes de televisão, mas também encontrando-se com líderes mundiais para discutir a situação e brigar pela liberdade das mais de 700 pessoas que estão sob o poder das Farc.
Seus filhos também mantinham um programa na rádio France International que era retransmitida para a rádio caracol da Colômbia, no qual a pedido de sua mãe contavam fatos de suas vidas cotidianas e, assim, mantê-la mais próxima deles.
Enfim, a história de Ingrid Betancourt e o reencontro com seus filhos mostra a força sobre-humana que só o ser humano é capaz de buscar para alcançar um sonho impossível. Em seu primeiro discurso, Ingrid frisou diversas vezes que o momento que vivia era um milagre… Milagre planejado e executado sem sangue e por seres humanos. Isso existe!
Ps: Claro que a operação de resgate deve muito ao trabalho do exército colombiano, mas acho desnecessário exaltar a inteligência militar (afinal de contas, inteligência deveria ser sempre utilizada mesmo nos quartéis). E como diriam os queridos argentinos, jamais deixando de exorcizar os tempos de ditadura: el que no salta es un milico!
****Atualização: e, se isso se confirmar, vergonha alheia da inteligência do exército da Colômbia.
Qu’est-ce qu’il y’a dans la tête des hommes?
Camille é uma francesa que recém chega aos 30 anos com o respeito de quem leva os mesmos 30 anos para conseguir. Com apenas 6 anos de dedicação profissional à musica, essa cantora meio doidinha conseguiu agradar literalmente a gregos e troianos, já que sua sonoridade extremamente experimental cativou tanto público como crítica, que chegou a compará-la com Björk. Ela instantaneamente refutou a “acusação” dizendo que soar como a cantora islandesa seria plágio.
Na verdade, a crítica cultural sempre busca associações ao apresentar um novo artista e, de fato, é evidente que ambas possuem o gosto pela experiência e a teatralização de suas interpretações musicais, além de serem bastante excêntricas. Outra coincidência é a exploração de vocalizações de todos os tipos possíveis de sons, notados com maior facilidade em seus segundo e quarto álbuns, respectivamente “Le Fil” e “Music Hole”.
Formada em Literatura e Ciências Políticas, Camille propositalmente nunca freqüentou conservatórios de música, mas muniu-se de técnicas vocais aprendidas em algumas aulas de canto apenas para ter a possibilidade de reproduzir os mais inusitados sons. Inclusive, seu último CD “Music Hole” (2008) foi assim batizado em homenagem aos orifícios do corpo humano, que segundo ela são responsáveis por sua produção de sons e música. Em uma divertida e bizarra entrevista, ela chega a explicar e demonstrar o que se pode fazer com cada buraco do corpo. (Ainda não tive tempo para apreciar esse disco, então vou deixar para comentá-lo mais pra frente. De qualquer maneira, já adianto que parece ser interessantíssimo, já que a base de todas as músicas é de percussão corporal, com participação de músicos brasileiros da banda Barbatuques.)
“Les sac des filles” (2002) foi sua primeira incursão no mundo profissional da música e também lhe serviu como trabalho de conclusão da faculdade de Ciências Políticas. (Parece os acadêmicos franceses não são tão antiquados como a fama que lhes persegue…) Cheio de referências à música francesa das décadas de 30, 40, folk norte-americano e, segundo ela, bossa-nova, neste disco Camille sugere que o mistério do conteúdo das bolsas das meninas pode ser equiparado ao mistério da mente masculina. Pergunta-se: Qu’est-ce qu’il y’a dans le sac des filles? Qu’est-ce qu’il y’a dans la tête des hommes? (O que tem na bolsa das meninas? O que tem na cabeça dos homens?)
Esse disco ainda não contava com tantos sons e experimentações vocais, mas já demonstrava sua vontade de testar novas sonoridades. Na música “Les Ex”, por exemplo, Camille soma à melodia sons de pratos e vidros se quebrando, remetendo a uma briga de casal. Na letra, ela execra a atitude de seu namorado que mantém uma agenda com telefones de suas “ex” sempre à postos: Les ex c’est comme le expresso, Ca se boit vite, ça se boit chaud. C’est pas comme l’amour impossible, les ex c’est toujours accessible (Os ex são como um café, se bebe rápido e quente. Não são como o amor, impossível; os ex são sempre acessíveis).
“Paris”, do clipe acima, é de longe a melhor canção. Ritmo, melodia, letra e até sapateado se encontram para produzir uma verdadeira obra prima resultante de uma relação de amor e ódio com sua cidade natal. Nela, a cantora ameaça buscar outro lugar pra viver, menos cinzento, mas termina por se render aos laços que a prendem na cidade.
Enfim, Camille é uma artista talentosíssima, interessantíssima, que uma vez disse à revista Les Inrockuptibles que, para ela, cantar é uma higienização. No ensejo, diria que músicos como ela fazem uma verdadeira higiene em nossos sentidos, tão maltratados pela televisão e rádio.
Não deixe de checar mais umas musiquinhas da moça. É só clicar em cima que você será levado para o YouTube, onde poderá escutá-las (nem todas tem clipes): “Vous”, “Ta Douleur” e “Le demeure d’un ciel“.







