Morro de São Paulo

Do barco, de longe, já se vê a ilha e sua parede de pedra no meio de uma montanha. Supõe-se bonito, mas você continua tentando encontrar as paisagens que o Google indicou durante uma busca prévia sobre o próximo destino a encarar. “Morro de São Paulo é paradisíaco”, dizem uns; outros relembram as belas noites, festas e pessoas.
Chegamos já tarde, porque o caminho de Itacaré a Valença (onde se toma o barco que leva à ilha) demorou mais do que o previsto.
*** A partir daqui, por favor, esqueça a existência de placas e sinalizações***
Digamos que “dar indicações” não é uma especialidade baiana e os conceitos de direita e esquerda são bastante flexíveis neste belo Estado. Entender o raciocínio e a gesticulação do simpático cidadão que parou para nos ajudar é uma tarefa quase impossível para mim, brasileira nata, imagino o que deve custar para o Diego, colombiano do mundo.

E no desenrolar das explicações discutimos as diretrizes em espanhol e, se estou dirigindo, ainda passo alguma saída porque me confundi nas entrelinhas dos diálogos, idiomas e, evidentemente, dos conceitos de direita e esquerda.
Carro no estacionamento em Valença, barco para a bela ilha. Enfim, às três e meia da tarde, chegamos mortos de cansaço ao promissor Morro de São Paulo. Com as mochilas nas costas, pulamos pro píer e começamos a andar em direção ao povoado: ladeiras interceptadas por mais ladeiras, morros e escadas. O sol fazia questão de marcar presença em cada canto de todas as ruelas de areia, onde pousadas que jamais poderíamos bancar se amontoavam.

Durante a busca por hospedagem, inevitavelmente houve um conflito entre os companheiros. Mas apenas um gole de água “glacial” foi necessário para retomarmos a temperatura na qual ainda se é possível pensar racionalmente e encontramos o lugar certo que, por certo, era longe e lá embaixo de uma ladeirinha “à la Pelourinho”. Deixamos mochilas, equipamentos, fomos fazer a única refeição completa do dia, já que não se encontram aqui preços para jovens mochileiros (veja bem, desde que não sejam israelitas).

Após o jantar, fomos em busca da praia para analisar um pouco a locação, buscar cenários e possíveis clientes. No Brasil, geralmente não se tem muita dificuldade de encontrar a praia em uma cidade litorânea, a não ser que você esteja no bairro de Irajá, por exemplo, no Rio de Janeiro. Ou em Morro de São Paulo.
Como o vilarejo ou povoado (qual será a definição pra Morro?) está no meio de diversos morros e montanhas, é muito fácil perder o rumo, ainda mais uma pessoa completamente desnorteada como eu. Mas conseguimos chegar ao que parecia ser uma praia, embora não se escutasse o mar nem se pudesse vislumbrar a água e as ondas. Andamos para um lado, para o outro… e era impossível entender que raios de praia era aquela. De fato não entendemos, assim como não sacamos qual era a “coisa” da noite de lá nem quem eram os turistas que a freqüentam.

Dia seguinte, descemos para aquela praia esquisita e vislumbramos um mar de piscinas naturais e cristalinas. O que era areia molhada na noite anterior já tinha sido coberto pelas águas e agora sim nos demos conta do motivo pelo qual o Google te indica paisagens paradisíacas quando você faz uma busca no site. Morro de São Paulo é lindo demais, mesmo!
No entanto, além das ladeiras e escadas desagradáveis (porém excelentes para as coxas e glúteos!), este local mágico possui um outro grande defeito que foi muito bem ilustrado por um senhor argentino que conheci lá.

Ele disse: “Che, pero está prendido El calefón?”. A água deve beirar, segundo ele, 27 graus centígrados e às vezes se jogar no mar pode ser mais um sacrifício que um alívio refrescante. Mas, de repente você enche novamente os olhos com as paisagens de Morro e, quando se der conta, já estará completamente entregado ao mar.
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