Pseudo-Rebeldia criminosa
Quem mora em São Paulo deve ter ouvido falar ou lido em algum lugar sobre um babaca que, como “trabalho de conclusão de curso”, chamou 40 amigos e juntos picharam a faculdade Belas Artes inteira, por dentro e por fora. Fachada, salas de aula, corredores, escadarias, onde tinha um espaço “em branco”, eles não hesitaram em preencher com pixação. Repito, pichação. Nada de grafite como vocês podem observar clicando aqui e aqui.
O nome do pateta é Rafael Guedes Augustaitiz e, segundo matérias publicadas na época (junho de 2008), cursou durante 4 anos o curso de “Artes Visuais” como bolsista. Não consegui descobrir de quanto exatamente era a bolsa que ele recebia, mas de qualquer maneira a escola apostava no potencial dele e por isso decidiu custear seus estudos em parte ou, talvez, até completamente. Ele afirmou que o que fez não passou de “ação performática e de protesto para discutir os limites e o conceito da arte”… Essa frase me parece tão hipócrita que me custa desconstruí-la dada ao sentimento de indignação que me toma cada vez que a leio. Mas voltarei a ela em breve.
Rafael, obviamente, foi expulso da Belas Artes e não obteve seu título universitário. No dia seguinte à ação dos vândalos (não existe melhor palavra para descrevê-los, já que além de terem destruído um centro educacional, estavam encapuzados – o anonimato é o refúgio do covarde), a direção da faculdade cobriu as pichações com tinta e reconstituiu seu ambiente original. O mentecapto, descontente, ainda reclamou e em entrevista a um jornalista da Folha afirmou: “o impulso e a cegueira fizeram com que apagassem a minha obra. Quem vai me indenizar?”
Parece brincadeira, mas não é. Tanto não é, que o retardado mental voltou a brincar de “artista de rua/vanguardista radical” e chamou uma galera para, desta vez, vandalizar a galeria Choque Cultural, neste blog mencionada não há muito tempo. Semana passada, Rafael PixoBomb (seu “nome de guerra”) chamou 30 amiguinhos para invadir a Choque e pichar todas as paredes e obras de arte ali expostas. Vale à pena lembrar que as paredes de lá também fazem parte das exposições, já que os artistas continuam as obras nelas, transpassando os limites da tela, moldura ou papel ali exibido. A própria fachada da galeria muda constantemente, já que diversos artistas plásticos são chamados para preenchê-las.
Parece que esses ignorantes fazem parte de um “movimento” chamado “PiXação: Arte Ataque Protesto”, cujo manifesto (se é que há) eu não consegui encontrar em nenhum lugar. Mas eles se comunicam, entre outras formas, por e-mail e foi através de uma mensagem eletrônica que teve início a palhaçada. Uma das partes do texto dizia o seguinte: “Evadiremos com nossa arte protesto uma “bosta” de galeria de arte que segundo sua ideologia abriga artista do movimento underground. Então é tudo nosso [sic]“.
Acredito ser evidente, ouso dizer que é até explícito que qualquer tipo de protesto que faz uso de violência perde automaticamente a essência e o valor daquilo que propõe discutir e, finalmente, se transforma exatamente naquilo que critica. Ora, foi o próprio Rafael que disse que sua ação na Belas Artes visava discutir os limites e o conceito da arte. Invadir uma galeria e pichar obras de outros artistas para afirmar que elas não têm o valor que os próprios artistas, os donos da galeria, o público que admira e os que as compram supostamente lhe agregam é arte? Ou propõe alguma discussão sobre o limite da arte?
O artista de rua, underground como a galeria e os próprios pichadores do “movimento” rotularam, não tem direito de se expor em uma galeria? Ou de viver de seu trabalho com o lucro da venda das telas e ilustrações? Quem são eles para decidir quem pode ou não pode, quem deve ou não deve fazer determinada coisa?
É realmente patética a atitude desses moleques que se escondem atrás de um discurso pobre e encoberto por um radicalismo hipócrita e infantil, que obviamente não se sustenta e se contradiz. O que eles queriam? Protestar contra a “comercialização, institucionalização e domesticação da cultura de rua”. O que eles conseguiram? Provocar o efeito contrário à intenção inicial. Como? Lendo comentários de blogueiros sobre o caso da Choque, me deparei com um que me causou muita graça e explica exatamente a saída do projétil pela culatra: as obras que lá estavam expostas e foram pichadas terão o “valor do protesto” agregado aos preços e ficarão mais caras. Se isso acontecerá ou não só o tempo dirá, mas é inegável que essa possibilidade existe e que os “rebeldes” acabaram atirando spray contra os próprios olhos simplesmente por deixar esta imensa e vulnerável brecha em seu “protesto”.
Porque, no final das contas, quem ri por último ri melhor e a polícia já está na cola dos “vanguardistas”. E os “diabólicos”, “corrompidos” e “corrompedores” donos da galeria poderão, quem sabe, ganhar muito dinheiro em cima da tentativa patética e desesperada dessa molecada de aparecer, virar notícia e cair na boca do povo. E, a bem da verdade, torço para que se entupam de grana às custas do “PiXação: Arte Ataque Protesto”.
Ps: uma última observação só pra ilustrar a incongruência do “movimento”. Logo após ser expulso da faculdade, um abaixo-assinado circulou pela cidade pedindo que a direção revisse a decisão e avaliasse o “TCC” do Rafael. Além de alunos, artistas também deixaram lá suas assinatura e entre eles estavam os conhecidos irmãos Otavio e Gustavo Pandolfo, Osgemeos, que começaram pintando nas ruas e ganharam fama internacional. No meio underground, eles sofrem críticas ferrenhas por terem aceitado criar trabalhos especiais para empresas, entre elas a mega-corporação norte-americana Nike. Se Rafael PixoBomb repudia a comercialização e domesticação da arte de rua, por que lhe interessou ser apoiado por tais artistas?
Valeu Dri.








