Saudades demais
Um de meus tangos favoritos num momento de nostalgia portenha. “Juguete Rabioso”, de La Chicana, banda que participa da trilha sonora do filme “Ciudad en Celo“.
Não deixem de apreciar esta canção:
Veterano del insomnio, soy un viejo prematuro.
Se me cansan las palabras, no es una forma de hablar.
Tengo una viola italiana, cuando hay hambre no hay pan duro.
El Mario me la endereza pero se vuelve a doblar.
Para garpar el casorio y el anillo vendí el coche.
Inocente adolescente, rematé mi libertad.
Soy un yonqui de la tele sin volumen a la noche,
como pa no molestarla, aunque ella ya no está.
Loca, no me exilies de tu boca por la culpa que te toca
mencioname una vez más.
Típico de mí, que vivo en pena, se me da una mano buena
y la tengo que arruinar.
Vos te esmeraste conmigo!
A mi vieja le dijiste que me ibas a domar…
Mi revolución era apariencia me perdiste la paciencia
cuando estaba por flaquear.
Fui tu juguete rabioso, fui tu mito encadenado.
Me tomaste de amuleto, un flaco para tu cruz.
Me amigué con tu retrato, cuántas veces lo he besado
Y lo abrazo preocupado cuando se corta la luz.
En mi guitarra atorranta hay un tango agazapado,
percanta que me amuraste no te puedo ni cantar.
No me sale más lirismo, tengo un verso atragantado
donde te mando a la mierda después vuelvo a suplicar.
Pero qué pasa, che?
Agora virou moda ir pra Buenos Aires… Todo mundo vai, foi ou está indo; ou conhece alguém que vai, foi ou está indo. E todos voltam apaixonados pela cidade, pela cultura, por Palermo, pelo sorvete, pelos passeadores de cachorro, por como as pessoas lêem no metrô e todo mundo é culto…
(essa última oração é a que eu mais escuto e como eu já morei lá, todo mundo vem me contar da viagem pra Baires e quase todos falam que, diferente do brasileiro, o povo de lá é culto! - um clichê que adorarei descontruir um dia, aqui neste espaço.)
Estes turistas brasileiros, no entanto, também tendem a concordar em duas coisas: os portenhos não têm o costume de recolher as fezes de seus cachorros (e como eles têm cachorros! E dos grandes!) e o serviço é péssimo, seja em lojas, restaurantes, bares ou baladas. Lá, o cliente é tratado como un perro: não como aqueles lindos golden retrievers que cagam majestosamente em seus tronos invisíveis nos quarteirões mais nobres da Recoleta ou de Belgrano, mas aqueles enxotados com vassoura de kioscos sujos à margem do rio da Prata, na pobre e suja La Boca.
Em BsAs, já protagonizei e presenciei incontáveis discussões com barmans, vendedores, garçons, taxistas, kioskeros e gerentes de diversos estabelecimentos por causa de grosseria. Assim, rapidinho, lembro-me da vez que pedi um chorinho de vodka em uma balada e o barman com cara de cú, catou o balde de gorjeta e bateu com força na minha frente. Só não virei o copo dentro porque Deus é pai e eu devia estar realmente precisando me embebedar!
Mais recentemente, na minha última ida à cidade, sentei com uma amiga em uma mesa para duas pessoas e juntamos com a do lado, pois esperávamos alguém. A garçonete veio falar que não podíamos juntar mesas, porque mesas para duas pessoas são mesas para duas pessoas, e as de quatro, para quatro.
Olhamos para os lados, direita, esquerda, frente, atrás, pelo menos três mesas de dois lugares unidas para comportar quatro boludos. Mencionamos isso e o fato de estarmos esperando outro ser humano, mas para a moçoila isso não pareceu uma contradição e, depois de muito discutir, ela nos obrigou a mudar de mesa. Evidentemente, dois minutos mais tarde, minha amiga e eu nos levantamos e fomos pra outro lugar.
Entretanto, definitivamente a grosseria não é a maior especialidade dos mozos portenhos, mas a indiferença. A la mierda, como eles ignoram os clientes e o fazem de maneira tão magistral que às vezes nos sentimos incumbidos a pedir desculpas por incomodá-los. Aliás, para chamar a atenção de alguém os argentinos sempre falam “Disculpame” - vai ver que essa expressão nasceu em alguma parrilla da capital.
Enquanto argentinava mais uma de minhas tardes, me deparei com um filme que jamais poderia ser mais argentino do que é e uma das cenas retrata de maneira espetacular o atendimento (in)diferencial dos restaurantes de Buenos Aires. Cortei e subi pro youTube como ela veio ao mundo, sem legenda, sem nada – não é preciso saber castelhano pra entender. (tá logo no começo do post)
“Quem disse que é fácil?” não é da melhor safra do cinema argentino contemporâneo, mas é bastante divertido, principalmente para aqueles que já tiveram oportunidade de conhecer o maior vizinho mais de perto. Para quem tiver interesse, o filme está em cartaz em São Paulo e traz no elenco um ator bem conhecido do público de lá, Diego Peretti, que acredito que em breve tomará o lugar do Ricardo Darín (aquele de todos os filmes argentinos, também conhecido como “o único-ator-argentino”).
Agora, enfim, os sovacos peludos… A imagem é um frame retirado do filme no momento em que a protagonista está parindo uma criança. Fiquei literalmente embasbacada com a cena, pois aqueles pelos não fazem o menor sentido, não têm razão para estar no quadro.
Andrea, a personagem, não é hippie, não é lésbica, não é feminista, é super feminina e passa o filme todo de regata sem que se note um cabelinho sequer. Além disso, as argentinas são obcecadas por depilação. Por que carajo aquela manta está lá no meio da família feliz?
Alguém sabe se grávidas não podem depilar nem raspar as axilas?
Se você já foi pra BsAs e foi atendido com cara de cú ou insultado por algum taxista, garçom, vendedor ou profissão similar, conte sua história clicanco no balãozinho verde no título do post lá em cima, ou clica aqui.









