A peripécia da modelo “gordinha”
Na noite de ontem da São Paulo Fashion Week, uma das modelos mais-mais do mundo desfilou de maneira ultrajante: ela exibia alguns quilinhos em demasia e, pasmem, celulite. Mesmo que Karolina Kurkova estivesse linda, deslumbrante e ainda assim com um corpo bem distante do que possa ser considerado a realidade, a imprensa especializada, com exceção da Glória Kalil que foi bastante discreta, não deixou barato e caiu matando em cima da coitada.
(antes de continuar peço atenção para o fato de que a foto, obviamente, desfavorece a moça, já que ela obviamente está curvando o tronco para a esquerda e as gorduras localizadas ficam ressaltadas. Aqui, uma foto menos sacana da moça)
O argumento é sempre o mesmo: como modelo, Karolina tem o dever e a obrigação de estar sempre magérrima e jamais demonstrar qualquer sinal de que é uma mulher como qualquer outra. Melhor que ninguém, a jornalista Erika Palomino esclarece direitinho como funciona a mentalidade fashion: “só se pode avaliar um biquÃni depois que checamos todos os pré-requisitos das modelos. Normais somos nós: delas exigimos nada menos do que a perfeição, o Olimpo”. Dando uma geral na internet, o que mais se encontra são blogueiros fazendo chacota e manchetes como a do Ego: “Top tcheca, que é uma das mais bem pagas do mundo, decepciona ao desfilar de biquÃni para a Cia. MarÃtima”.
Li também coisas como “se eu quisesse ver gente gorda, não ia na SPFW” e outras variações do gênero, que não passam de hipocrisia e ignorância. Primeiro, porque uma modelo de alta-costura com Kurkova não é e jamais será gorda enquanto estiver trabalhando. Segundo, porque vivemos nos policiando em relação a todos os tipos de preconceitos que existem no planeta: cor, credo, raça, nacionalidade, mas gordura é algo que as pessos automaticamente excluem dessa lista. Todos se sentem livres, leves e soltos para difamar qualquer pessoa que esteja pesando mais na balança como se isso não fosse discriminação.
Longe de mim querer mudar o funcionameno do mercado da moda, que aliás nem me causa grande interesse, mas ao ver a foto de Kurkova, deveras mais cheinha do que a modelo-padrão, pensei imediatamente como seria incrÃvel se uma supermodelo decidisse quebrar com os padrões de beleza pré-estabelecidos sabe-se lá por quem e que o povo perpetua como se fosse a verdade absoluta.
Não é um manifesto para que todas as modelos passem a se empanturrar e fiquem todas gordas, mesmo porque isso também não seria saudável ou esteticamente agradável. Porém, se as modelos pesassem 10 quilos a mais elas continuariam sendo lindas e esbeltas, dada à altura que necessariamente possuem, e estariam muito mais próximas da mulher comum, para quem as roupas supostamente são desenhadas.
Enfim, uma modelo que se recusa a ser esquelética como a Kate Moss dos anos 90 e mesmo assim deslumbra na passarela é um sonho que eu espero ver em vida. Também adoraria ver um grande jogador de futebol, Ãdolo internacional, assumir-se gay.
Já pensou? O quanto amaducerÃamos…







