Así es la vida…
Não dá pra fugir… Tenho que encarar o fato que perdemos de goleada pra Argentina e nossos arqui-rivais dos campos levaram embora nosso sonho da medalha de ouro olímpico, a única que falta à grandiosa história da seleção brasileira de futebol.
Embora não seja tão fanática do esporte e ter uma admiração e amor incondicionais pelos hermanos argentos, não gosto de ver meu time perder, inclusive pelo fato de sentir prazer em debochar de meus amigos que moram do lado esquerdo da fronteira.
É um deboche “buena onda”, mais pra causar umas boas risadas do que pra provocar e, na maioria das vezes, é em vão porque, por incrível que pareça, existem muitos argentinos que não estão nem aí para o futebol (e a sensação que eu tenho é que todos os meus amigos são desse tipo. Na verdade, não todos, como vocês podem observar nos comentários do post anterior sobre o Sérgio Mallandro, em que um amigo argentino manifesta livremente seu direito de deboche).
No meu primeiro ano em Buenos Aires, em 2005, morava em um bairro bastante residencial chamado Belgrano e, sabe-se lá como, todos os poucos comerciantes do bairro me conheciam e sabiam a minha nacionalidade. “Brasilera”, escutava eu a cada três passos nos 2 quarteirões até a estação de metrô José Hernandez. Eventualmente quando estava de mal-humor ou simplesmente cansada de tanta popularidade, costumava atravessar a rua ou ir pela paralela, apenas para fugir das papos intermináveis das lindas férias que esses argentinos passaram no Brasil. E, claro, sempre elas, as “lindas garotiñas” que conheceram.
Mas quando o Brasil jogava e ganhava… Aí sim eu fazia questão de passar e falar com todo mundo. Quando ganhamos de 4×1 na Copa América ou algo do tipo, eu dava tchauzinho com o a mão mostrando apenas 4 dedos, rindo e me divertindo. Minhas provocações sempre eram acompanhadas de um sorriso, incapaz de esconder o gostinho sádico de ver o rival perder.
Mas o sentimento de união sempre foi muito maior, tanto do meu lado como do deles. Na Copa do Mundo de 2006, troquei camisas das seleções brasileira e argentina com uma amiga porteña e nos comprometemos a assistir pelo menos um jogo do rival em ambiente típico, além de torcer por ambos os países. Por mais que isso nem sempre fosse possível, fiquei bastante triste quando a Argentina perdeu (principalmente quando um desgraçado jogou uma pedra na porta de vidro do meu prédio só porque tinham alemães lá em casa, e eu tive que me explicar pro porteiro Juan e disfarçar o fato de que havia mais de 60 pessoas em um apartamento de 2 quartos. Sim, era uma festa de integração entre estrangeiros e argentinos e calhou de ser no dia do jogo com a Alemanha e de eu morar com uma pessoa dessa nacionalidade, cheia de amigos com o mesmo passaporte. Tirando o vidro, a festa foi um sucesso e argentinos viram suas mágoas desaparecer no meio da diversão e de alemães).
Os jogos do Brasil eram os únicos momentos em que eu me relacionava com brasileiros e já era o suficiente para ficar saturada. Os bares tupiniquins de qualquer lado do mundo sempre têm aquelas meninas que adoram se esfregar em ritmo de samba nas virilhas de gringos. Em Buenos Aires não é diferente e pululam europeus em lugares como o “Me Leva Brasil” e “Devenir”. Como sinto vergonha alheia e raiva dessas mulheres (que reforçam ainda mais o estereotipo do Brasil no exterior), costumava me retirar de lá cedo e zarpar para outro lugar com minha única amiga brasileira de Baires, a Djones.
Mas também eram nesses jogos que eu botava pra fora toda a raiva e rancor reprimidos pelo fato de ter que me relacionar 24 horas por dia com os portenhos (dos argentinos, os menos fáceis de lidar)… Por mais que sejamos parecidos, o choque cultural é inevitável e às vezes eles me tiravam do sério (e, graças a Deus, tive a sorte de conhecer pessoas maravilhosas que me traziam à realidade, davam aulas sobre a arte da compreensão e aceitação e me lembravam porque eu amo tanto esse povo). Era nas partidas também que eu me sentia brasileira de verdade, parte de uma nação - mais um conforto pra quem está fora de casa, do que um sentimento concreto; de qualquer maneira me fazia bem.
Poderia seguir contando dezenas de histórias muito peculiares e interessantes que vivi ou presenciei na Argentina envolvendo futebol, mas acredito que se eu me estender mais neste post vou corromper a essência do veículo “blog” que visa textos mais curtos, mais dinâmicos.
De qualquer maneira, deixo aqui a promessa de voltar ao assunto porque conteúdo é o que não falta. Pra dar uma palhinha: apareci em rede nacional e fui reconhecida pelo porteiro de um bar no dia seguinte; já quis assassinar compatriotas que balançavam a bunda para as câmeras argentinas após a derrota do Brasil para a França e gritavam “Alegria, Alegria” – Caramba, o Zidane acabou com a gente de novo e as putinhas querendo aparecer na TV (Vá pastar!); e, claro, quando fui a única brasileira na platéia do jogo entre Argentina e Alemanha, convidada e vestida à caráter por meus amigos alemães (também os únicos no meio de 400 argies) e, obviamente, com chapéu verde e amarelo.
***De qualquer maneira, parabéns aos jogadores da Argentina pela vitória. Mereceram!***
Mas faço questão de frisar que o Brasil perdeu propositalmente, já que essa derrota tinha o intuito de tirar o Dunga da chefia e, antes do que qualquer medalha de ouro, é isso que queremos… (Alguém acredita? Ha ha ha; ou ja ja ja, como diriam eles.)
Ps: A AFA inclui a passagem e estadia do Maradona nas partidas “del seleccionado celeste”? Meu, o cara faz alguma outra coisa da vida além de ver pessoalmente jogos da equipe argentina?
Ps2: no final tivemos 2 jogadores expulsos porque se comportaram como “verdadeiros” argentinos e saíram chutando canelas e agredindo. E os argentinos, reagindo com a paz e a alegria que só os goleadores têm… papéis invertidos, placar trocado. Bem feito!
Pero qué pasa, che?
Agora virou moda ir pra Buenos Aires… Todo mundo vai, foi ou está indo; ou conhece alguém que vai, foi ou está indo. E todos voltam apaixonados pela cidade, pela cultura, por Palermo, pelo sorvete, pelos passeadores de cachorro, por como as pessoas lêem no metrô e todo mundo é culto…
(essa última oração é a que eu mais escuto e como eu já morei lá, todo mundo vem me contar da viagem pra Baires e quase todos falam que, diferente do brasileiro, o povo de lá é culto! - um clichê que adorarei descontruir um dia, aqui neste espaço.)
Estes turistas brasileiros, no entanto, também tendem a concordar em duas coisas: os portenhos não têm o costume de recolher as fezes de seus cachorros (e como eles têm cachorros! E dos grandes!) e o serviço é péssimo, seja em lojas, restaurantes, bares ou baladas. Lá, o cliente é tratado como un perro: não como aqueles lindos golden retrievers que cagam majestosamente em seus tronos invisíveis nos quarteirões mais nobres da Recoleta ou de Belgrano, mas aqueles enxotados com vassoura de kioscos sujos à margem do rio da Prata, na pobre e suja La Boca.
Em BsAs, já protagonizei e presenciei incontáveis discussões com barmans, vendedores, garçons, taxistas, kioskeros e gerentes de diversos estabelecimentos por causa de grosseria. Assim, rapidinho, lembro-me da vez que pedi um chorinho de vodka em uma balada e o barman com cara de cú, catou o balde de gorjeta e bateu com força na minha frente. Só não virei o copo dentro porque Deus é pai e eu devia estar realmente precisando me embebedar!
Mais recentemente, na minha última ida à cidade, sentei com uma amiga em uma mesa para duas pessoas e juntamos com a do lado, pois esperávamos alguém. A garçonete veio falar que não podíamos juntar mesas, porque mesas para duas pessoas são mesas para duas pessoas, e as de quatro, para quatro.
Olhamos para os lados, direita, esquerda, frente, atrás, pelo menos três mesas de dois lugares unidas para comportar quatro boludos. Mencionamos isso e o fato de estarmos esperando outro ser humano, mas para a moçoila isso não pareceu uma contradição e, depois de muito discutir, ela nos obrigou a mudar de mesa. Evidentemente, dois minutos mais tarde, minha amiga e eu nos levantamos e fomos pra outro lugar.
Entretanto, definitivamente a grosseria não é a maior especialidade dos mozos portenhos, mas a indiferença. A la mierda, como eles ignoram os clientes e o fazem de maneira tão magistral que às vezes nos sentimos incumbidos a pedir desculpas por incomodá-los. Aliás, para chamar a atenção de alguém os argentinos sempre falam “Disculpame” - vai ver que essa expressão nasceu em alguma parrilla da capital.
Enquanto argentinava mais uma de minhas tardes, me deparei com um filme que jamais poderia ser mais argentino do que é e uma das cenas retrata de maneira espetacular o atendimento (in)diferencial dos restaurantes de Buenos Aires. Cortei e subi pro youTube como ela veio ao mundo, sem legenda, sem nada – não é preciso saber castelhano pra entender. (tá logo no começo do post)
“Quem disse que é fácil?” não é da melhor safra do cinema argentino contemporâneo, mas é bastante divertido, principalmente para aqueles que já tiveram oportunidade de conhecer o maior vizinho mais de perto. Para quem tiver interesse, o filme está em cartaz em São Paulo e traz no elenco um ator bem conhecido do público de lá, Diego Peretti, que acredito que em breve tomará o lugar do Ricardo Darín (aquele de todos os filmes argentinos, também conhecido como “o único-ator-argentino”).
Agora, enfim, os sovacos peludos… A imagem é um frame retirado do filme no momento em que a protagonista está parindo uma criança. Fiquei literalmente embasbacada com a cena, pois aqueles pelos não fazem o menor sentido, não têm razão para estar no quadro.
Andrea, a personagem, não é hippie, não é lésbica, não é feminista, é super feminina e passa o filme todo de regata sem que se note um cabelinho sequer. Além disso, as argentinas são obcecadas por depilação. Por que carajo aquela manta está lá no meio da família feliz?
Alguém sabe se grávidas não podem depilar nem raspar as axilas?
Se você já foi pra BsAs e foi atendido com cara de cú ou insultado por algum taxista, garçom, vendedor ou profissão similar, conte sua história clicanco no balãozinho verde no título do post lá em cima, ou clica aqui.
La Bomba de Tiempo
Nesta antiga fábrica de azeite instalou-se um dos espaços culturais mais legais de Buenos Aires, acolhendo todos os tipos de expressão artística em suas instalações originais da década de 1920. Isto é, palco, platéia e bastidores são todos improvisados dentro das possibilidades que às vezes incluem pilares que atrapalham a visão, cadeiras de plástico nada confortáveis e, claro, uma acústica sofrível. No entanto, sabe-se lá porquê tudo isso termina por agregar personalidade às obras e esse espaço é um dos mais cobiçados da capital argentina com seus shows, peças de teatro e até cinema ao ar livre.
Às segundas-feiras, enquanto a maioria das pessoas ainda se recupera do fim de semana para agüentar os 4 próximos dias, os portenhos mais descolados da cidade vão ao Ciudad Cultural Konex buscar energia e energizar. Pouco depois das 19 horas, centenas de pessoas se unem ao redor de um grupo de mais de 15 percussionistas e um maestro que juntos formam La Bomba de Tiempo.
Liderada por Santiago Vazquez, a orquestra tem o ritmo como enfoque principal e toca tudo de maneira improvisada, seguindo as indicações do maestro que criou um idioma com mais de 70 sinais executados com braços, mãos, dedos, pés, cabeça e tronco. Assim, Vazquez dirige os companheiros agregando notas e repetições, mudando o compasso, além de diversas outras possibilidades que o horizonte musical oferece. Os músicos, por sua vez, interpretam isso à sua maneira e junto com o público que participa energizando tudo e todos, são compostas canções em tempo real.
La Bomba de Tiempo from lavergui on Vimeo.
O projeto começou pequenininho, numa sala no andar superior do Konex e foi assim que o conheci, arrastada por um amigo colombiano. Portanto, minha surpresa foi grande quando, ao voltar para BsAs quase 2 anos depois, presenciei a orquestra se apresentar no maior ambiente do lugar e para uma galera que em quantidade beirava o número 500. E em essência, o povo que freqüenta continua o mesmo e a intensidade com que vive cada batuque é tão peculiar como daquela primeira vez que eu fui. Todos ali estão dispostos a deixar a música levá-los para onde quer que seja e isso implica libertar o corpo e deixá-lo se movimentar sem nenhuma barreira, emocional, social ou física. Em plena segunda-feira, friso (nem comento a baixa temperatura para não forçar a barra).
O público de La Bomba entra literalmente em transe e, inclusive, proporciona momentos bem engraçados para quem os observa se mover freneticamente, sem inibição alguma, e na maioria das vezes de olhos fechados justamente para não se incomodar com os olhares curiosos de gente curiosa como eu.
Devo confessar que a primeira vez que vi essa gente dançando pensei “estão todos drogados”, porque no salão onde a banda tocava era proibido todo tipo de líquido e muito menos qualquer coisa que se fumasse (a orquestra pára de tocar caso a galera não respeite o sinal de não-fumantes). De fato, as condições eram bem propícias para que qualquer pessoa pensasse: “bala” ou “doce”!
Mas, desta vez já com copos de 1 litro de cerveja à venda, percebi que o público que freqüenta é formado por aquele tipo de pessoa que realmente busca na música uma forma de terapia e na dança uma maneira de exorcizar os demônios do dia-a-dia. E, aí sim, realmente pude me emocionar não apenas pelo som que ecoa da orquestra de percussão que dá o sangue no palco, mas com a vibe dos que estão ali para formar uma unidade, que é a Bomba de Tiempo.
É uma experiência incrível, que se ocupa de todos os sentidos e oferece uma energia revigorante para iniciar a semana. Portanto, quem estiver indo passar uma semaninha em BsAs, agora em julho, deve deixar o tango pro domingo (La Viruta, post futuro) e cair no batuque da La Bomba de Tiempo.
Ps: só não vai esperando o Carlinhos Brown e Olodum porque vai quebrar a cara.
Muto
Esta é sem dúvida uma das animações mais legais que já vi na vida, porque além do trabalho de edição e animação em si, o artista pintou cada frame que é aqui mostrado. Pintou, jogou tinta branca por cima, voltou a pintar - já tendo em mente o trabalho de dar vida e movimento a tudo isso que ele desenhava.
Depois que descobri o Banksy (você pode ler sobre isso aqui), Blu foi um passo natural. O cara é um artista portenho que vive entre Buenos Aires e a Europa, fazendo grafitte aonde quer que o convidem. Por exemplo, mês passado ele preencheu o imenso muro do museu londrino de arte contemporânea Tate e agora parece que está expondo nas ruas e nas galerias de Milão. Novidades aqui no blog dele.
Muito foda! Vale dar uma olhadela no site dele…
Tiene Buenos Aires qué sé yo
Inexorable. Inexplicable. Esencial. Piel de gallina. Carcajadas. Mucho Amor. Demasiada Alegría. Aunque fríííííío, mucho calor!
Nunca dormí tan poco, tal vez viva demasiado.
No reconozco el punto justo donde hay que frenar.
Me preguntaba lo que había dado,
y lo que me habían dejado.
Me respondieron que la vida hay que aceptar.
De cualquier modo que te toque esta bien.
De cualquier modo que te toque esta mal.
Mejor abrir los ojos para saber, lo que te gustaría hacer.
Debo haber estado dando pasos al costado,
paralizado por el miedo de saber la verdad.
Me imaginaba que lo que habíamos pasado había quedado pisado,
pero encontramos una nueva forma de hablar.
Y es el momento en que todo comienza de vuelta,
mi corazón esta alerta y el tuyo también,
todo este tiempo vivido me sirve de ejemplo
para no volver, para no volver, para no volver a caer.
Me faltan palabras, prefiero callarme. “Pasos al costado”, Turf















