La Bomba de Tiempo
Nesta antiga fábrica de azeite instalou-se um dos espaços culturais mais legais de Buenos Aires, acolhendo todos os tipos de expressão artística em suas instalações originais da década de 1920. Isto é, palco, platéia e bastidores são todos improvisados dentro das possibilidades que às vezes incluem pilares que atrapalham a visão, cadeiras de plástico nada confortáveis e, claro, uma acústica sofrível. No entanto, sabe-se lá porquê tudo isso termina por agregar personalidade às obras e esse espaço é um dos mais cobiçados da capital argentina com seus shows, peças de teatro e até cinema ao ar livre.
Às segundas-feiras, enquanto a maioria das pessoas ainda se recupera do fim de semana para agüentar os 4 próximos dias, os portenhos mais descolados da cidade vão ao Ciudad Cultural Konex buscar energia e energizar. Pouco depois das 19 horas, centenas de pessoas se unem ao redor de um grupo de mais de 15 percussionistas e um maestro que juntos formam La Bomba de Tiempo.
Liderada por Santiago Vazquez, a orquestra tem o ritmo como enfoque principal e toca tudo de maneira improvisada, seguindo as indicações do maestro que criou um idioma com mais de 70 sinais executados com braços, mãos, dedos, pés, cabeça e tronco. Assim, Vazquez dirige os companheiros agregando notas e repetições, mudando o compasso, além de diversas outras possibilidades que o horizonte musical oferece. Os músicos, por sua vez, interpretam isso à sua maneira e junto com o público que participa energizando tudo e todos, são compostas canções em tempo real.
La Bomba de Tiempo from lavergui on Vimeo.
O projeto começou pequenininho, numa sala no andar superior do Konex e foi assim que o conheci, arrastada por um amigo colombiano. Portanto, minha surpresa foi grande quando, ao voltar para BsAs quase 2 anos depois, presenciei a orquestra se apresentar no maior ambiente do lugar e para uma galera que em quantidade beirava o número 500. E em essência, o povo que freqüenta continua o mesmo e a intensidade com que vive cada batuque é tão peculiar como daquela primeira vez que eu fui. Todos ali estão dispostos a deixar a música levá-los para onde quer que seja e isso implica libertar o corpo e deixá-lo se movimentar sem nenhuma barreira, emocional, social ou física. Em plena segunda-feira, friso (nem comento a baixa temperatura para não forçar a barra).
O público de La Bomba entra literalmente em transe e, inclusive, proporciona momentos bem engraçados para quem os observa se mover freneticamente, sem inibição alguma, e na maioria das vezes de olhos fechados justamente para não se incomodar com os olhares curiosos de gente curiosa como eu.
Devo confessar que a primeira vez que vi essa gente dançando pensei “estão todos drogados”, porque no salão onde a banda tocava era proibido todo tipo de líquido e muito menos qualquer coisa que se fumasse (a orquestra pára de tocar caso a galera não respeite o sinal de não-fumantes). De fato, as condições eram bem propícias para que qualquer pessoa pensasse: “bala” ou “doce”!
Mas, desta vez já com copos de 1 litro de cerveja à venda, percebi que o público que freqüenta é formado por aquele tipo de pessoa que realmente busca na música uma forma de terapia e na dança uma maneira de exorcizar os demônios do dia-a-dia. E, aí sim, realmente pude me emocionar não apenas pelo som que ecoa da orquestra de percussão que dá o sangue no palco, mas com a vibe dos que estão ali para formar uma unidade, que é a Bomba de Tiempo.
É uma experiência incrível, que se ocupa de todos os sentidos e oferece uma energia revigorante para iniciar a semana. Portanto, quem estiver indo passar uma semaninha em BsAs, agora em julho, deve deixar o tango pro domingo (La Viruta, post futuro) e cair no batuque da La Bomba de Tiempo.
Ps: só não vai esperando o Carlinhos Brown e Olodum porque vai quebrar a cara.







