31
May
2008
 

Qu’est-ce qu’il y’a dans la tête des hommes?

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Camille Dalmais em foto de divulgação de “Le Fil”

Camille é uma francesa que recém chega aos 30 anos com o respeito de quem leva os mesmos 30 anos para conseguir. Com apenas 6 anos de dedicação profissional à musica, essa cantora meio doidinha conseguiu agradar literalmente a gregos e troianos, já que sua sonoridade extremamente experimental cativou tanto público como crítica, que chegou a compará-la com Björk. Ela instantaneamente refutou a “acusação” dizendo que soar como a cantora islandesa seria plágio.

Na verdade, a crítica cultural sempre busca associações ao apresentar um novo artista e, de fato, é evidente que ambas possuem o gosto pela experiência e a teatralização de suas interpretações musicais, além de serem bastante excêntricas. Outra coincidência é a exploração de vocalizações de todos os tipos possíveis de sons, notados com maior facilidade em seus segundo e quarto álbuns, respectivamente “Le Fil” e “Music Hole”.

Formada em Literatura e Ciências Políticas, Camille propositalmente nunca freqüentou conservatórios de música, mas muniu-se de técnicas vocais aprendidas em algumas aulas de canto apenas para ter a possibilidade de reproduzir os mais inusitados sons. Inclusive, seu último CD “Music Hole” (2008) foi assim batizado em homenagem aos orifícios do corpo humano, que segundo ela são responsáveis por sua produção de sons e música. Em uma divertida e bizarra entrevista, ela chega a explicar e demonstrar o que se pode fazer com cada buraco do corpo. (Ainda não tive tempo para apreciar esse disco, então vou deixar para comentá-lo mais pra frente. De qualquer maneira, já adianto que parece ser interessantíssimo, já que a base de todas as músicas é de percussão corporal, com participação de músicos brasileiros da banda Barbatuques.)

Les sac des filles” (2002) foi sua primeira incursão no mundo profissional da música e também lhe serviu como trabalho de conclusão da faculdade de Ciências Políticas. (Parece os acadêmicos franceses não são tão antiquados como a fama que lhes persegue…) Cheio de referências à música francesa das décadas de 30, 40, folk norte-americano e, segundo ela, bossa-nova, neste disco Camille sugere que o mistério do conteúdo das bolsas das meninas pode ser equiparado ao mistério da mente masculina. Pergunta-se: Qu’est-ce qu’il y’a dans le sac des filles? Qu’est-ce qu’il y’a dans la tête des hommes? (O que tem na bolsa das meninas? O que tem na cabeça dos homens?)

Esse disco ainda não contava com tantos sons e experimentações vocais, mas já demonstrava sua vontade de testar novas sonoridades. Na música “Les Ex”, por exemplo, Camille soma à melodia sons de pratos e vidros se quebrando, remetendo a uma briga de casal. Na letra, ela execra a atitude de seu namorado que mantém uma agenda com telefones de suas “ex” sempre à postos: Les ex c’est comme le expresso, Ca se boit vite, ça se boit chaud. C’est pas comme l’amour impossible, les ex c’est toujours accessible (Os ex são como um café, se bebe rápido e quente. Não são como o amor, impossível; os ex são sempre acessíveis).

“Paris”, do clipe acima, é de longe a melhor canção. Ritmo, melodia, letra e até sapateado se encontram para produzir uma verdadeira obra prima resultante de uma relação de amor e ódio com sua cidade natal. Nela, a cantora ameaça buscar outro lugar pra viver, menos cinzento, mas termina por se render aos laços que a prendem na cidade.

Enfim,  Camille é uma artista talentosíssima, interessantíssima, que uma vez disse à revista Les Inrockuptibles que, para ela, cantar é uma higienização. No ensejo, diria que músicos como ela fazem uma verdadeira higiene em nossos sentidos, tão maltratados pela televisão e rádio.

Não deixe de checar mais umas musiquinhas da moça. É só clicar em cima que você será levado para o YouTube, onde poderá escutá-las (nem todas tem clipes): “Vous”, “Ta Douleur” e “Le demeure d’un ciel“.

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