Banksy e a Revolução das Latas
Comecei a me interessar pela arte de rua há pouco tempo e me dá raiva só de pensar em tudo o que eu perdi ao ignorar o graffiti por puro preconceito. Antes de ser linchada, explico-me. Esse meu preconceito não era necessariamente consciente, já que não me interessava por essa manifestação artística simplesmente por falta de interesse mesmo. Nada nunca tinha me sensibilizado, imagino.
Jamais participei daquele grupo que acredita que seja uma arte menor (aliás, acho que não existe tal coisa), mas as paredes pintadas de São Paulo nunca me chamaram muito a atenção a não ser pelo fato de substituírem com graça e uma beleza meio torta as malditas pichações. E também por serem bastante voláteis: sempre passo debaixo do viaduto que liga a Dr. Arnaldo com a Paulista, onde o graffiti domina toda a extensão, e cada vez que passo por lá vislumbro novos desenhos, cores e estilos diferentes.
Eu olhava, admirava o esforço e a intenção do artista, mas não passava disso, nada nunca me cativou. Talvez porque a cultura hip hop, que tem o graffiti como uma de suas bases de sustentação, não seja algo com o qual eu me relacione muito, a não ser por eventuais músicos como os Racionais (que me cativam através do discurso, principalmente por sua aguçada visão social) e Marcelo D2 (não pelas letras, mas cuja sonoridade de rap com samba me agrada bastante).
No entanto, navegando aleatoriamente pela internet, dei de cara com alguns trabalhos de um grafiteiro inglês e anônimo que se intitula Banksy e fiquei de queixo caído. Acredito que o que me chamou a atenção tenha sido a alta conotação política que suas obras exalam, sem dar trégua a nada e a ninguém.
Banksy é implacável em sua crítica à sociedade de consumo, às instituições que delineiam o modo de vida ocidental, como a polícia, a família, as corporações e sabe explorar como poucos as ironias da vida com as quais nos deparamos ao caminhar para o trabalho, ao se chacoalhar dentro de um veículo de transporte público, aquelas coisas insólitas que deixamos passar de lado sem refletir porque a necessidade de “seguir a vida” é avassaladora e ninguém tem tempo para parar. Ao levá-las para as ruas e expô-las em tamanho-família nas paredes de Londres, Banksy deu novo status a esse tipo de arte e chamou a atenção de diversas galerias e, inclusive, teve algumas de suas ilustrações arrematadas por quantias bem elevadas.
Mas, dinheiro e fama não parecem surtir efeito algum nele. O cara jamais mostrou a cara e costuma trabalhar em horários pouco usuais pra evitar problemas com a polícia e assédio dos transeuntes, que fotografam incansavelmente suas ilustrações e cujas fotografias acabam sendo o único registro da existência das obras, já que eventualmente aquelas paredes são aproveitadas por outros grafiteiros como manda a etiqueta da street art. Ele também faz instalações, ilustrações, é um artista completo.

Há pouco tempo, ao lado de muitos outros artistas, ele realizou uma exposição gigante em um túnel desativado do metrô londrino que foi chamado de The Cans Festival. No site do evento, dá pra ter uma idéia do que aconteceu e as fotos são realmente incríveis, todas as paredes pintadas e diversas instalações retratam o submundo das grandes metrópoles, que parece ser um tema recorrente na obra de Banksy.
Esse artista está longe de delimitar sua obra às ruas londrinas e já chegou a expor quadros nos museus mais tradicionais de Nova York. Em entrevista à BBC, disse que os seguranças estão preocupados com o que sai dos museus, não com o que entra e isso trabalhou em seu favor. Sim, ele levou seus quadros e, na surdina, fixou-os ao lado dos quadros de acervo do Museu de História Natural, do Metropolitan Museum of Art, do Moma (Musuem of Modern Art) e do Brooklin Museum. Por que o fez? Um dia, sua irmã num ataque de fúria jogou suas ilustrações no chão e disse que elas jamais teriam lugar num museu. Ledo engano!
Outra façanha de Banksy foi ilustrar o lado palestino da imensa barreira construída pelo exército israelense na Csijordânia, supostamente para evitar a entrada de terroristas em seu território. Para o artista, são quase 700 quilômetros de tela vazia, no entanto para os palestinos esse muro tem uma representação extremamente distinta, muito além do que nós ocidentais poderemos jamais compreender, e o próprio Banksy encontrou resistência. Falando à BBC, disse que um senhor se aproximou dele e disse que fosse embora, que ele estava fazendo aquele muro ficar bonito coberto de obras de arte e que isso era inaceitável, porque encobria o verdadeiro significado daquela construção.
Enfim, esse cara é muito foda e abriu meus horizontes. Talvez ele faça o mesmo com você. Clica aê!









27 de May de 2008 às 3:06 pm
[...] marinavergueiro.com placed an observative post today on Banksy e a Revolução das LatasHere’s a quick excerpt [...]
27 de May de 2008 às 6:52 pm
Putz, eu tinha lido dessa exposição em Londres, e na faculdade mesmo tive fiz uma apresentação sobre grafiti que justamente me fez, ao estudar, ver a diferença entre uma pichação de merda e a arte que grafiti pode vir a ser. Inclusive, vi agora que Buenos Aires tem muito grafiti, mas nada tão elaborado, é claro… e aqui em São Paulo mesmo, além do túnel na Paulista, tem uma ruazinha na Vila Madalena completamente pintada, os moradores mesmo forneceram as tintas, é demais. Sempre mudo meu caminho pra passar por ali, ou pela Henrique Schaumann, gosto do muro do Goethe (é assim?). Sem contar que o impacto da coisa costuma ser alto, porque é justamente arte na rua, fora da “moldura” do museu que espanta tanta gente, e sem restrições.