Qu’est-ce qu’il y’a dans la tête des hommes?
Camille é uma francesa que recém chega aos 30 anos com o respeito de quem leva os mesmos 30 anos para conseguir. Com apenas 6 anos de dedicação profissional à musica, essa cantora meio doidinha conseguiu agradar literalmente a gregos e troianos, já que sua sonoridade extremamente experimental cativou tanto público como crítica, que chegou a compará-la com Björk. Ela instantaneamente refutou a “acusação” dizendo que soar como a cantora islandesa seria plágio.
Na verdade, a crítica cultural sempre busca associações ao apresentar um novo artista e, de fato, é evidente que ambas possuem o gosto pela experiência e a teatralização de suas interpretações musicais, além de serem bastante excêntricas. Outra coincidência é a exploração de vocalizações de todos os tipos possíveis de sons, notados com maior facilidade em seus segundo e quarto álbuns, respectivamente “Le Fil” e “Music Hole”.
Formada em Literatura e Ciências Políticas, Camille propositalmente nunca freqüentou conservatórios de música, mas muniu-se de técnicas vocais aprendidas em algumas aulas de canto apenas para ter a possibilidade de reproduzir os mais inusitados sons. Inclusive, seu último CD “Music Hole” (2008) foi assim batizado em homenagem aos orifícios do corpo humano, que segundo ela são responsáveis por sua produção de sons e música. Em uma divertida e bizarra entrevista, ela chega a explicar e demonstrar o que se pode fazer com cada buraco do corpo. (Ainda não tive tempo para apreciar esse disco, então vou deixar para comentá-lo mais pra frente. De qualquer maneira, já adianto que parece ser interessantíssimo, já que a base de todas as músicas é de percussão corporal, com participação de músicos brasileiros da banda Barbatuques.)
“Les sac des filles” (2002) foi sua primeira incursão no mundo profissional da música e também lhe serviu como trabalho de conclusão da faculdade de Ciências Políticas. (Parece os acadêmicos franceses não são tão antiquados como a fama que lhes persegue…) Cheio de referências à música francesa das décadas de 30, 40, folk norte-americano e, segundo ela, bossa-nova, neste disco Camille sugere que o mistério do conteúdo das bolsas das meninas pode ser equiparado ao mistério da mente masculina. Pergunta-se: Qu’est-ce qu’il y’a dans le sac des filles? Qu’est-ce qu’il y’a dans la tête des hommes? (O que tem na bolsa das meninas? O que tem na cabeça dos homens?)
Esse disco ainda não contava com tantos sons e experimentações vocais, mas já demonstrava sua vontade de testar novas sonoridades. Na música “Les Ex”, por exemplo, Camille soma à melodia sons de pratos e vidros se quebrando, remetendo a uma briga de casal. Na letra, ela execra a atitude de seu namorado que mantém uma agenda com telefones de suas “ex” sempre à postos: Les ex c’est comme le expresso, Ca se boit vite, ça se boit chaud. C’est pas comme l’amour impossible, les ex c’est toujours accessible (Os ex são como um café, se bebe rápido e quente. Não são como o amor, impossível; os ex são sempre acessíveis).
“Paris”, do clipe acima, é de longe a melhor canção. Ritmo, melodia, letra e até sapateado se encontram para produzir uma verdadeira obra prima resultante de uma relação de amor e ódio com sua cidade natal. Nela, a cantora ameaça buscar outro lugar pra viver, menos cinzento, mas termina por se render aos laços que a prendem na cidade.
Enfim, Camille é uma artista talentosíssima, interessantíssima, que uma vez disse à revista Les Inrockuptibles que, para ela, cantar é uma higienização. No ensejo, diria que músicos como ela fazem uma verdadeira higiene em nossos sentidos, tão maltratados pela televisão e rádio.
Não deixe de checar mais umas musiquinhas da moça. É só clicar em cima que você será levado para o YouTube, onde poderá escutá-las (nem todas tem clipes): “Vous”, “Ta Douleur” e “Le demeure d’un ciel“.
Banksy e a Revolução das Latas
Comecei a me interessar pela arte de rua há pouco tempo e me dá raiva só de pensar em tudo o que eu perdi ao ignorar o graffiti por puro preconceito. Antes de ser linchada, explico-me. Esse meu preconceito não era necessariamente consciente, já que não me interessava por essa manifestação artística simplesmente por falta de interesse mesmo. Nada nunca tinha me sensibilizado, imagino.
Jamais participei daquele grupo que acredita que seja uma arte menor (aliás, acho que não existe tal coisa), mas as paredes pintadas de São Paulo nunca me chamaram muito a atenção a não ser pelo fato de substituírem com graça e uma beleza meio torta as malditas pichações. E também por serem bastante voláteis: sempre passo debaixo do viaduto que liga a Dr. Arnaldo com a Paulista, onde o graffiti domina toda a extensão, e cada vez que passo por lá vislumbro novos desenhos, cores e estilos diferentes.
Eu olhava, admirava o esforço e a intenção do artista, mas não passava disso, nada nunca me cativou. Talvez porque a cultura hip hop, que tem o graffiti como uma de suas bases de sustentação, não seja algo com o qual eu me relacione muito, a não ser por eventuais músicos como os Racionais (que me cativam através do discurso, principalmente por sua aguçada visão social) e Marcelo D2 (não pelas letras, mas cuja sonoridade de rap com samba me agrada bastante).
No entanto, navegando aleatoriamente pela internet, dei de cara com alguns trabalhos de um grafiteiro inglês e anônimo que se intitula Banksy e fiquei de queixo caído. Acredito que o que me chamou a atenção tenha sido a alta conotação política que suas obras exalam, sem dar trégua a nada e a ninguém.
Banksy é implacável em sua crítica à sociedade de consumo, às instituições que delineiam o modo de vida ocidental, como a polícia, a família, as corporações e sabe explorar como poucos as ironias da vida com as quais nos deparamos ao caminhar para o trabalho, ao se chacoalhar dentro de um veículo de transporte público, aquelas coisas insólitas que deixamos passar de lado sem refletir porque a necessidade de “seguir a vida” é avassaladora e ninguém tem tempo para parar. Ao levá-las para as ruas e expô-las em tamanho-família nas paredes de Londres, Banksy deu novo status a esse tipo de arte e chamou a atenção de diversas galerias e, inclusive, teve algumas de suas ilustrações arrematadas por quantias bem elevadas.
Mas, dinheiro e fama não parecem surtir efeito algum nele. O cara jamais mostrou a cara e costuma trabalhar em horários pouco usuais pra evitar problemas com a polícia e assédio dos transeuntes, que fotografam incansavelmente suas ilustrações e cujas fotografias acabam sendo o único registro da existência das obras, já que eventualmente aquelas paredes são aproveitadas por outros grafiteiros como manda a etiqueta da street art. Ele também faz instalações, ilustrações, é um artista completo.

Há pouco tempo, ao lado de muitos outros artistas, ele realizou uma exposição gigante em um túnel desativado do metrô londrino que foi chamado de The Cans Festival. No site do evento, dá pra ter uma idéia do que aconteceu e as fotos são realmente incríveis, todas as paredes pintadas e diversas instalações retratam o submundo das grandes metrópoles, que parece ser um tema recorrente na obra de Banksy.
Esse artista está longe de delimitar sua obra às ruas londrinas e já chegou a expor quadros nos museus mais tradicionais de Nova York. Em entrevista à BBC, disse que os seguranças estão preocupados com o que sai dos museus, não com o que entra e isso trabalhou em seu favor. Sim, ele levou seus quadros e, na surdina, fixou-os ao lado dos quadros de acervo do Museu de História Natural, do Metropolitan Museum of Art, do Moma (Musuem of Modern Art) e do Brooklin Museum. Por que o fez? Um dia, sua irmã num ataque de fúria jogou suas ilustrações no chão e disse que elas jamais teriam lugar num museu. Ledo engano!
Outra façanha de Banksy foi ilustrar o lado palestino da imensa barreira construída pelo exército israelense na Csijordânia, supostamente para evitar a entrada de terroristas em seu território. Para o artista, são quase 700 quilômetros de tela vazia, no entanto para os palestinos esse muro tem uma representação extremamente distinta, muito além do que nós ocidentais poderemos jamais compreender, e o próprio Banksy encontrou resistência. Falando à BBC, disse que um senhor se aproximou dele e disse que fosse embora, que ele estava fazendo aquele muro ficar bonito coberto de obras de arte e que isso era inaceitável, porque encobria o verdadeiro significado daquela construção.
Enfim, esse cara é muito foda e abriu meus horizontes. Talvez ele faça o mesmo com você. Clica aê!
Eco-Ads
A loja neozelandesa EcoStore, especializada em produtos biologicamente corretos, lançou a campanha publicitária aí do lado, digna de prêmio.
Seria incrível se nossos publicitários brasileiros passassem a usar seu poder de persuasão e criatividade para produtos que não agridam tanto o meio-ambiente, de maneira que nós também não fôssemos tão agredidos com propagandas aonde quer que depositemos o olhar.
Na verdade, esse tipo de prática já é bem comum nos EUA e Europa e é conhecido como “eco-advertising”. Não entendo nada de economia e nem acredito que é preciso entender muito para perceber que esse tipo de propaganda não só é completamente viável (não exige mais esforço ou criatividade que as maneiras tradicionais) como atinge os objetivos, trazendo lucro aos anunciantes. Afinal de contas, cada vez é maior a quantidade de empresas que surgem oferecendo produtos eco-friendly e obviamente elas nascem para atender à demanda do consumidor.
Um dos pilares que sustenta a publicidade é, indubitavelmente, a enganação. Isto é, você quer todo custo provar para o consumidor que seu produto é o melhor, seja pela qualidade efetiva ou pelos valores agregados, mesmo que ele seja o pior. E claro que o que mais existe no mundo, com menção honrosa para o Brasil, é a picaretagem. Deve estar cheio de empresas por aí que se anunciam como ecologicamente sustentáveis, mas na verdade não passam de um grande esgoto a céu aberto em algumas das centenas de reservas ecológicas do país.
Portanto, é preciso ficar atento e não crer em qualquer ladainha. De qualquer maneira, tenho um resto de fé no ser humano e espero que os empresários não-sustentáveis fiquem com seus modos antigos e obsoletos de anunciar – não porque acredite neles, mas porque simplesmente me parecem tão burros ao ignorar a tendência mundial do eco-friendly que, evidentemente, também são burros o suficiente para modernizar suas idéias de como vender seus produtos poluentes. E, como já se fala por aí, o modo tradicional de fazer publicidade está enfrentando uma crise bem gordinha.
Em algumas semanas começa o Cannes Lions, a versão de publicidade do grande festival francês. Seria legal ver premiadas peças que estimulem a consciência ambiental, já que é bem evidente que as coisas andam bem mal aqui no nosso planeta.
O Dançarino das Areais
Ele chega à praia junto com os surfistas, quando o sol ainda é recém-nascido. Como para eles, o contato com a praia e o mar é a forma que o neozelandês Peter Donelly encontrou para se sentir em equilíbrio com si próprio e com o mundo que o rodeia. No entanto, as quatro horas quase que diárias que ele gasta na praia não têm nada a ver com esportes, pelo menos não intencionalmente.
Pete é um artista plástico que um dia, talvez do alto de um morro, olhou para as areais de Christchurch e viu uma enorme tela em branco. Munido de uma vassoura de folhas e um bastão, decidiu preencher aquele vazio estético e instalou seu ateliê frente às brisas do oceano Pacífico.
Diferentemente de milhares de artistas que quebram a cabeça para criar algo inovador, que rompa com os padrões e os transforme em ícones da cultura contemporãnea, Pete Donelly cria suas obras obra tamanho king-size pelo simples prazer de criar e talvez jamais imaginou que pudesse ganhar fama mundial por causa de seu passatempo, que para os curiosos que observam de longe não passa de uma loucura.
Pelas redondezas de onde vive, esse talentoso artista é conhecido como Sand Dancer, já que parte de seu trabalho envolve, entre outras coisas, dar saltos enormes para não prejudicar a área já trabalhada. Enquanto cria, o bailarino das areias é observado por dezenas, às vezes centenas de curiosos que se posicionam em lugares mais altos para obter uma visão privilegiada do produto final que nem o próprio artista é capaz de ter.
Justamente por isso, pela impossibilidade de ver o que faz desde uma perspectiva superior, o trabalho de Pete é ainda mais impressionante. Seus desenhos gigantes, que parecem demorar dias para serem completados, são todos feitos às cegas, sem um plano-geral que o ajude a vislumbrar qual caminho seguir para atingir seus objetivos finais, se é que ele os têm. Se está difícil de imaginar, dê uma olhadela aqui:
Arte na areia é algo bastante recorrente em todo o litoral brasileiro, principalmente no Rio de Janeiro onde hordas de turistas pagam até 10 reais para fotografar esculturas de mulheres em fio dental, com suas bundas estrategicamente posicionadas para o calçadão. Longe de mim fazer um julgamento de valor sobre nossos artistas cariocas, que muitas vezes impressionam pela capacidade de esculpir a areia com tantos detalhes e verossimilhança, mas o trabalho desse neozelandês é verdadeiramente original e deslumbrante.
Segundo Donelly, protagonista de um curta-metragem premiadíssimo chamado “Sand Dancer” do qual uma parte foi extraída e publicada logo acima, os curiosos costumam participar de seu processo criativo gritando desde longe coisas como “a maré está se aproximando!”. Entretanto, para ele a chegada das ondas é o que completa sua obra. A efemeridade de suas criações e a integração total delas com a natureza são fatores decisivos que definitivamente lhes conferem uma beleza e sensibilidade ainda maior que a provocada simplesmente pela estética.
Não vejo a hora de pôr os olhos neste documentário, dirigido por Valerie Reid, e conhecer um pouco mais sobre esse personagem tão peculiar. Enquanto isso não é possível, o vídeo acima dá uma amostra bastante instigante do trabalho de Pete Donelly.
Glauber, o Latino-americano
Diego, um amigo colombiano dos longínquos e saudosos tempos de Buenos Aires, está organizando um festival de curta-metragens, que nasceu de uma paixão em comum entre vários dos organizadores: Glauber Rocha. Embora o evento esteja sediado na Argentina, podem participar cineastas nascidos em qualquer país da América Latina com trabalhos que tenham no máximo 30 minutos de duração. Tema e gênero são livres e o prazo de inscrição é 23 de junho.
Vai lá: En transe.











